Corregedoria Nacional de Justiça publica Decisão que aprimora as regras de averbação de alteração de nome, de gênero ou de ambos de pessoas transgênero

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V – GÊNERO “NÃO BINÁRIE”

Muito embora tenha o Supremo Tribunal Federal redigido a ementa da ADI n.

4.275/DF valendo-se da expressão “transgêneros”, ao invés da expressão “transexuais”,

não se observa da leitura atenta do inteiro teor do respectivo acórdão qualquer ampliação

dos gêneros passíveis de alteração no Registro Civil das Pessoas Naturais (RCPN) para

além daqueles que também podem caracterizar o sexo de determinada pessoa

(masculino e feminino).

O eminente Ministro Luiz Fux, inclusive, consignou em seu voto convergente que “A

identidade de gênero, repita-se, corresponde ao gênero com o qual a pessoa se identifica

psicossocialmente. Não há terceiro gênero, nem é este o pleito.”.

Logo, evidente que, quando da apreciação da referida Ação Direta de

Inconstitucionalidade, valeu-se a Suprema Corte do chamado “sistema binário do gênero/

sexo”, que, nos termos do Parecer Consultivo n. 24 da Corte Interamericana de Direitos

Humanos, consiste no “modelo social e cultural dominante na cultura ocidental que

‘considera que gênero e sexo englobam duas, e apenas duas, categorias rígidas, a saber,

masculino/homem e feminino/mulher”.

Deste modo, em sendo o Provimento CNJ n. 73/2018 mero ato normativo voltado a

esclarecer e orientar a execução dos serviços extrajudiciais em razão da decisão

proferida pelo Supremo Tribunal Federal na ADI n. 4.275/DF e que esta, por sua vez,

nada prescreveu sobre eventual possibilidade de alteração do sexo de determinada

pessoa diretamente no Registro Civil de Pessoas Naturais para qualquer gênero diferente

de “masculino” ou “feminino”, não se mostra possível que, por este meio – ato

administrativo –, venha esta Corregedoria Nacional permitir a inclusão do termo “nãobinárie” – ou algo que o valha – no campo destinado ao registro do “sexo” de alguém.

Nesse contexto, relevante consignar o entendimento já exarado por esta

Corregedoria Nacional de Justiça, no Parecer constante do Processo SEI n. 02037/2023,sobre a possibilidade, ou não, de “ampliação das alternativas de gênero para efeito

registral, além do binarismo masculino e feminino” (doc. 1591099), do qual transcrevo:

Conforme registrado pelo Ministro Marco Aurélio no seu voto da

ADI n. 4.275 já acima reproduzido, “O critério morfológico, embora carente de

mitigação, ainda é parâmetro relevante para a identificação de cidadãos”.

As consequências aqui, de não se identificar o sexo ou a

identidade de gênero binária no registro civil, são de ordem bastante ampla,

atingindo direitos e obrigações de todas as ordens, como de saúde, educação,

trabalhista, previdenciária, e essa questão, acredito, ainda não se encontra

madura o suficiente para que seja regulada administrativamente por esta

Corregedoria Nacional, merecendo um ambiente de amplo debate no Poder

Legislativo, quem detém competência para definir legal e universalmente a

temática, e, eventualmente, pelas Cortes de Justiça, sob o enfoque de garantir o

melhor direito ao cidadão.

Assim, muito embora sejam legítimas as preocupações da

requerente e encontrem fundamentos relevantes no voto do Juiz de Direito

Eduardo Rezende Melo, membro do Foninj, não há como acolher as propostas por

ele realizadas no que diz respeito à atuação desta Corregedoria Nacional de

Justiça.

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